06/06/2020

Corpo a corpo

Violar o corpo
pôr as mãos pra cima
abaixar a cabeça
como quem lastima

violar o corpo
conter o cabelo
decepar a barba
difamar o pelo

violar o corpo
recobrir o seio
censurar o dorso
e dizê-lo feio

violar o corpo
engolir selvagem
aspirar fumaça
e não ter coragem

de fitar o corpo
sem ser hesitoso
evitar-se o toque
sujeitar o gozo

violar o corpo
e opô-lo ao tempo
tolerar o dolo
de maldar o intento

porque morre o corpo
todo e qualquer
o que viola teme
o corpo quer.

(Paulo Vitor Cruz)

01/06/2020

Epopeia à brasileira simplificada

Havia um pobre no aeroporto
e o desejo que estivesse morto
fosse ele mais um funcionário
ou viajasse em um outro horário
poderia até passar batido
esse cordão igual ao do bandido
essa bermuda caída
essa risada atrevida
a voz alta e reclamona
essa camisa bem cafona
e sua mochila agarrando
na esteira das malas justo quando
a bagagem do queixoso passa
ele engole sem choro a pirraça
e a reação deveras temerária
contra esses ares de rodoviária
advindos desses tipos vis
que destruíam todo o seu país
enquanto aguarda a hora da virada
pra sair do armário a pátria armada
e revelar que um filho seu não foge à luta
o filho que é seu
o filho da puta.



(Paulo Vitor Cruz)

23/05/2020

Acalanto companheiro

Divididos entre prazer e dor
ele refrata
eu nem vou
ouça-me bem
camarada
ele não é como eu sou
e somos todos distância
somos todos ardor
ardemos
e a floresta
toda noite
está em brasa
a notícia
todo dia
nos arrasa
precisamos
todo tempo
estar em casa
mas tenha calma
meu amigo
não se desespere
pois lhe digo
que o asfalto
- tapete negro onde o progresso desfila -
rio tortuoso repleto de perigos
há de secar
é inevitável
porque não vai dar
é inevitável
não se afogar
quando o bloco puder tomar a rua
porque nós seremos mar
se me preservo é porque quero estar presente
se te preservo é para sermos tão somente
gota d'água ardente
nessa grande festa
a verdadeira festa
no verdadeiro lar.

(Paulo Vitor Cruz)

28/04/2020

Falario

Ouça o que
eu falo falo
falo sério falo
eu falo falo
falo não
quieto falo
falarão
falo falo
quieto falo
falo não
cala
para
cala
para
cala
fala não

não fala
falo
não fala
falo
falarão.


(Paulo Vitor Cruz)

10/04/2020

Poema enclausurado


Mas que aperto
ninguém por perto
respiro
o peito
está deserto
a clausura entedia e desespera
me guardo no quarto
lá fora amanhece
e eu só anoiteço
e empalideço
e embaraço
e me confundo
e me rechaço
e quero e não quero e quero e não quero aquilo mais
ansiosa a mente
visita o momento em que tudo acaba
o momento em que tudo acaba
e eu renasço
consciente do quanto fere
ser casso
vou urgir o toque nessa hora
e haurir o cheiro
e transpor a pele
para impregnar ligeiro
a carne com o que é humano
como quem preserva o companheiro
do dano
destes tempos
de não ser
de corpo inteiro.


(Paulo Vitor Cruz)

31/03/2020

Ode à primavera que ainda chega



A primavera
depende de você
para sagrar-se bela

se fica à mercê
não se desvela

carece envolver
a sua janela

quem olha
quem vê
quem tarda nela

quer seus sentimentos transformadores
para ascender as suas cores
e entender-se bela

como ela
como ela

portanto

suporte um pouco mais
mesmo quando
incapaz

não se desespere que esse outono passa
não se desespere que esse inverno passa

espere a primavera
como quem coopera
com a boa nova
com a nova era

tenha esperança
que ela te espera
feito aquarela
transmutando a tela

bela como ela

primavera.


(Paulo Vitor Cruz)

25/03/2020

Reminiscências crepusculares

Mamãe precisa ficar em casa agora
o mundo todo agora é perigoso

mas doce como ela
disciplinada como ela
ficar ocorre bem

surge aquele tempo de fazer coisas
coisas que a rotina não deixa

eu ainda preciso sair
mas tenho me cuidado
há um peso nos ombros deixando marcas
há uma vontade sempre urgente de voltar

justo eu
homem de paz que abomina a guerra
sou mais um soldado
contra o inimigo invisível

mas tenho me cuidado

o que me pega desprevenido
se posso confessar no poema
é chegar em casa
vê-la abrir a máquina de costura
- andava de lado há tempos -
perguntando de quem lembrava aquela cena

ora
tão fácil respondi "da vó"

então mamãe contou da infância
de ficar perto enquanto vovó costurava
de depois ir escondido
retirar a agulha com desvelo
e costurar alguns sonhos
numa folha de papel

contou também
da primeira vez que costurou de verdade
uma blusa de alcinha
blusa essa que vovó prontamente aprovou
das bermudas que fez pro meu pai
das roupinhas de bebê pra mim
ela foi lembrando
e foi lembrando

o fim de tarde foi abrir a porta pra memória entrar
eu juro que sei
mas não quis dizer
que os raios de luz do arrebol traziam as recordações
vindas do céu de onde vovó está

a poesia tem seus momentos
e estes precisam ser respeitados
da mesma forma como se deve respeitar as mães
e suas capacidades de surgir na hora incerta
com a palavra que mais precisamos


o laço remoçou a memória
e a memória estreitou o laço
o laço
apertado nó
que não se desfaz
como só quem sente
é capaz.

29/02/2020

Ramificado





Tire seu sadismo do caminho
que eu quero passar com o meu amor

ou causo em você o desalinho
desalinho do bom
arrebatador

tire porque eu não vou sozinho
e quem vem se juntar
vem pra te propor

a se alastrar no que é espinho
e fazer germinar
tudo o que flor.

(Paulo Vitor Cruz)

25/02/2020

Respeite o meu carnaval

Respeite o meu carnaval
são muitas dores que tenho
afasta pr'eu respirar

deixa eu pintar a face
com as cores todas do ar
que for invento agora
deixa eu na rua sonhar

dentro do samba que toca
meu tenaz dorso de escravo
ou morro aqui de penúria
careço sim desse afago

respeite o bloco que passa
porque o bloco é um só
só quem não sofre não sente
o laço torna-se nó

o nó que ninguém separa
o nó que é ritual
de mitigar a mazela
respeite o meu carnaval.

(Paulo Vitor Cruz)

08/02/2020

Camila

Moça
você é bonita

a forma como existe é bonita

respira sem medo
como se conhecesse os segredos todos da criação
e então se move entre os cômodos da casa
com a astúcia felina e vivaz de mulher

notá-la é boa ventura

o que peço é que passe por mim de novo e de novo
porque te ver passar deixa o dia melhor
e a percepção de que é você por aí existindo
cria em mim um ensejo de esperança indecifrável

seu ato de beleza é generoso e libertador
possibilita que mesmo minha simplória observação
do movimento corriqueiro do seu corpo
consiga captá-lo sem esforço

é despertar para uma outra experiência
além dos afazeres comuns da rotina de intentos

e
se me permite dizer
perdoe a abordagem assim dessa maneira
- nesses tempos de dor e descrença
quedamos ainda mais à flor da pele -
mas é uma necessidade discorrer a respeito
e querer que resistam os seus cachos
os seus olhares
e pensamentos

a sua reunião de formas e cores é rara
moça
e você é rara e bonita

e digo
um tanto quanto audaciosa
moça

você parece uma estrela.


(Paulo Vitor F. da Cruz)

03/11/2018

Vou-me embora pro Piranhão






Vou-me embora pra Pasárgada
que se chama Piranhão
todo mundo lá é livre
gay não é aberração

a mulher anda bonita
veste a roupa que quiser
sem sofrer nenhum abuso
sem ninguém pegar no pé

lá no Piranhão tem tudo
negro índio pobre ateu
só não tem a truculência
desse preconceito seu.

29/07/2018

A verdadeira estória do grão de orvalho - Meu novo livro de poemas


"MANUAL DO ENCANTAMENTO
O peixinho a borboleta
o arvoredo e o querubim
só enlevam a cidade
quando a gente quer assim."

...

Prezado leitor,

Meu novo livro está disponível para venda no site da PerSe, uma plataforma virtual que dá suporte a autores independentes, assim como eu.

Fizemos uma tarde de autógrafos no Mendes Bar no dia 21/07/2018 como parte da Tarde Cultural que aconteceu por lá com muita música (DJ Crraudio, Mr E.Z. Mc, Victor Benini e a banda Crua), literatura (sarau com a participação da galera e convidados), HQ (Rafael Bianchini, também em tarde de autógrafos) e a exibição dos curtas "Palace, o contador de histórias" e "A orelha de Van Gogh".

Os exemplares vendidos durante o evento contaram com um desconto especial sobre o preço de capa, e o valor correspondente aos direitos autorais da venda dos exemplares foi doado para a ONG Animajudar, da Cidade de Ubá-MG, que visa ajudar animais de rua abandonados.

Link página da ONG para quem quiser conhecer e ajudar: https://www.facebook.com/animajudar/

Link para acesso ao livro na loja virtual:
http://www.perse.com.br/persenovo/livro.aspx?filesFolder=N1530030407498

Você pode também adquirir um exemplar diretamente comigo via e-mail:
paulovitorfdacruz@gmail.com

P.s.: Aproveito a postagem para agradecer a todo mundo que contribuiu de alguma para tornar tudo isso possível. A Vocês (eu ia marcar, mas fiquei com medo de esquecer alguém) a minha eterna gratidão.

Um abraço.


Paulo Vitor F. da Cruz