30/07/2019

Na escola eu aprendi a ser viado

Na escola eu aprendi a ser viado
e muito agradeço haja vista
que hoje quem me chama de safado
veste a mesma farda que o fascista

urra que não quer um namorado
reza a oração terraplanista
bate soca chuta e fica irado
não aceita nunca que eu resista

vacinado aviso ao patriota:
- poupe a saliva e o cuspe acre
e vá já lamber a velha bota

sempre engraxada pro massacre
pra não parecer tão idiota
e sobreviver a mais um lacre.


(Paulo Vitor Cruz)

20/07/2019

Julho dezenove

Fiquei feliz quando soube que Padre Marcelo Rossi
o padre pop
o padre povão
não quis saber de prestar queixa
contra a autora do empurrão
disse que se fez B.O.
foi da Bíblia e da Oração
me lembrei de alguma forma
do que na vida é ser cristão

fiquei feliz quando soube que minha mãe
voltou até o vendedor para devolver o troco a mais
e que o homem ficou agradecido e quis recompensá-la
a recompensa pouco importa
pouco importa a gratidão
pra mim vale a memória
de potência da ação

fiquei feliz quando soube que eu
amargurado com tanta coisa que vejo e sinto e ouço dizer
ainda mantenho a capacidade de esperançar
esperançar
verbo resistência
que é mais forte em comunhão
verbo fé que não se apaga
mesmo quando dizem não
me lembrei de alguma forma
qual a minha direção.

18/05/2019

Poema de pais e filhos

Quando eu fui menino
morria de medo da minha mãe brava
dizendo que ia contar pro meu pai tudo o que eu aprontei
- a meninice vez em quando enriquece as lembranças
ante a escassez de inocência que sobrou nestes tempos -
veja você
lembrar disso e mais aquilo
me convence de que ainda sou menino
agora que morro de rir escondido da minha mãe brava
dizendo ao meu pai que vai contar pra mim tudo o que ele aprontou

o tempo teve a necessidade de passar
e deixar nítido que meus pais são os meus primogênitos
ao passo que serei eternamente o menino deles

veja você
relação de pais e filhos é sempre igual
um acontecimento inédito que não se vale de laços de sangue
compatibilidade de gênios ou posicionamentos hierárquicos
não
não se vale de conveniências
nem de convenções
só se vale
de amor.

20/04/2019

Identidade

Sou mosaico
conjunto de estilhaços genéticos duramente erguido
sou índio
português
africano
italiano

e posso te contar com detalhes
se for de seu interesse
que meus bisavós paternos eram primos
que fugiram de Portugal atrás de casamento no Brasil

dizer que o Floriano do meu sobrenome é italiano
que provavelmente já foi Floriani após a chegada da família
mas que sua origem é Ferriani
e que se refere a uma família de guerreiros da antiguidade

mas não posso te contar da minha origem indígena
só imagino coisas sem nenhuma propriedade ou orientação
não sei a tribo
nem o costume
só sei que o sangue foi tirado
tirado na marra
e que há muita morte em minhas veias
que pulsam com a mesma intensidade
do impedimento histórico em te contar
os detalhes do meu sangue afro
só há manchas
e vazios
e engasgos ensurdecedores

diante do mar tenho saudade e medo
- a travessia não foi fácil para toda a herança que carrego -
dizem dentro de mim
as lembranças que me foram arrancadas antes de nascer

eu não compreendo nada desses sentimentos e não poderia
porque a minha identidade é mosaico
estilhaço genético duramente erguido
a minha identidade não tem voz nem se concebe
e está mesmo fadada à sina sinistra de não se achar.

16/03/2019

Momento de glória

Todo mundo tem o seu momento de glória

te conto com orgulho
que hoje mais cedo
entre as paredes duramente erguidas
na cidade onde quase tudo é concreto
eu tive o meu

estava ali na fila do pão
quando apareceu um capitalista degenerado
incitando pessoas a vender a alma

conversamos por alguns instantes
tentei convencê-lo
mas ele
infelizmente
não observou muito valor na minha existência errante
ofereceu-me um espelho
com a devida delicadeza daquele que carrega nos ombros
a obrigação moral de conceder a todos
alguma chance de negócio

ofereceu-me um espelho
um espelhinho apenas
nada mais

posto isso
pensei o tempo que fosse justo pensar
diante de uma escolha de tamanha importância
e aceitei oportunamente o escambo
- captei
entre os desencontros de olhares que me foram permitidos
algum brilho naquele espelho
e tudo o que brilha
me encanta de alguma forma -

finda a negociata e já em posse de meu novo espelho
vi o mundo doente

tentei chorar

copiosamente
porque o momento pedia

tentei chorar
tentei chorar
tentei chorar

e eu consegui!

(Paulo Vitor F. da Cruz)

14/02/2019

Treno à brasileira

O país estar sangrando
de tal modo me afeta
que não sei se resta força
pro ofício de poeta

tenho medo e alguém morre
pela raiva de quem mata
tenho asco e isso fere
com minúcia tão exata

que a ferida é certeira
dói
maltrata
e me irrita
ela mostra que sou fraco
e a grandeza
é restrita

eu vacilo
mas retorno
por quem segue resistindo
são heróis
são minha gente
e seu gesto
algo lindo.

26/12/2018

A minha bandeira

A minha bandeira em paz será vermelha
será a pele vermelha
a preta a branca a amarela
arco-íris multicor
será cor de riso fácil
colorida da afeição
por alguém ali na rua
que eu vou chamar de irmão

vai ter cor de verde mata
cor da água que chegou
com a chuva com o vento
com a tarde
com amor
e mesmo sendo tão bonita
tão repleta de valor
essa tal bandeira minha
deixa - se preciso for -
o seu tremular no mastro
pra tornar-se cobertor.

03/11/2018

Vou-me embora pro Piranhão






Vou-me embora pra Pasárgada
que se chama Piranhão
todo mundo lá é livre
gay não é aberração

a mulher anda bonita
veste a roupa que quiser
sem sofrer nenhum abuso
sem ninguém pegar no pé

lá no Piranhão tem tudo
negro índio pobre ateu
só não tem a truculência
desse preconceito seu.

Boa Viagem



Só nos resta ir embora
como forma de lutar
vamos juntos de mãos dadas
vamos para um bom lugar

o sentido pouco importa
se o caminho é o coração
pra chegar sequer um passo
as mãos dadas bastarão.

(Paulo Vitor F. da Cruz)

29/08/2018

Resta um

Você mata o bandido
vem outro bandido
você mata o outro bandido
vem o irmão do outro bandido
você mata o irmão do outro bandido
vem o amigo do irmão do outro bandido
você mata o amigo do irmão do outro bandido
vem um outro bandido que não tem a ver com a história
você mata o outro bandido que não tem a ver com a história
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
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e mata
e mata
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e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
e mata
vem uma bala perdida de um outro matador de bandido
e te mata
da mesma forma como se mata o bandido.

29/07/2018

A verdadeira estória do grão de orvalho - Meu novo livro de poemas


"MANUAL DO ENCANTAMENTO
O peixinho a borboleta
o arvoredo e o querubim
só enlevam a cidade
quando a gente quer assim."

...

Prezado leitor,

Meu novo livro está disponível para venda no site da PerSe, uma plataforma virtual que dá suporte a autores independentes, assim como eu.

Fizemos uma tarde de autógrafos no Mendes Bar no dia 21/07/2018 como parte da Tarde Cultural que aconteceu por lá com muita música (DJ Crraudio, Mr E.Z. Mc, Victor Benini e a banda Crua), literatura (sarau com a participação da galera e convidados), HQ (Rafael Bianchini, também em tarde de autógrafos) e a exibição dos curtas "Palace, o contador de histórias" e "A orelha de Van Gogh".

Os exemplares vendidos durante o evento contaram com um desconto especial sobre o preço de capa, e o valor correspondente aos direitos autorais da venda dos exemplares foi doado para a ONG Animajudar, da Cidade de Ubá-MG, que visa ajudar animais de rua abandonados.

Link página da ONG para quem quiser conhecer e ajudar: https://www.facebook.com/animajudar/

Link para acesso ao livro na loja virtual:
http://www.perse.com.br/persenovo/livro.aspx?filesFolder=N1530030407498

Você pode também adquirir um exemplar diretamente comigo via e-mail:
paulovitorfdacruz@gmail.com

P.s.: Aproveito a postagem para agradecer a todo mundo que contribuiu de alguma para tornar tudo isso possível. A Vocês (eu ia marcar, mas fiquei com medo de esquecer alguém) a minha eterna gratidão.

Um abraço.


Paulo Vitor F. da Cruz

21/06/2018

Oh, pedacinho inútil de madeira

Oh, pedacinho inútil de madeira
resto ordinário trabalhado em verniz
sobra que amontoa o esquecimento
descarte rotineiro desta fabriqueta
- que sequer tem nome
ou mero endereço
só a produção de fundo de quintal -

desconsiderado
tu não farás parte da mobília simples de feição vulgar

seu futuro torpe
não
eu não conheço
pra ser bem sincero
de ti
pouco sei

melhor que eu não pense
melhor que eu não veja
miseravelmente
quero não saber

pois sabendo
eu sinto
e sentindo
sofro

sem sua mazela
eu sou mais feliz

tu que foste planta
e viveu bonito
forneceu madeira
e morreu em paz
já não adianta
esboçar seu brilho
tola bagatela
que já tanto faz

porque não demora
mais que uma noite
para a companhia de limpeza urbana
pôr sua carcaça na caçamba suja
e dar cabo logo da hostil matéria

que não tem valia
morta e incapaz

vilipendiado
tu não serve mais.