22/10/2017

O direito de feder

Estava em seu cantinho quando sentou perto de si um fedorento. Ele já estava cansado depois de um dia duro de trabalho, não ia dar pra aguentar um fedorento do seu lado até chegar em casa. Resolveu esperar uns instantes pra não parecer que arredava só por ele ter sentado do seu lado com todo aquele fedor insuportável. Não era a intenção ofendê-lo. Fingiu que algo pela janela do ônibus chamava atenção e arredou pro lado. De nada adiantou:

— Ei, meu senhor, por que você arredou pro canto?

— Como é?

— Por que você arredou pro canto? Está incomodado com o meu suor?

— Não, meu rapaz. Eu nem havia reparado…

— Não vem com essa, meu senhor! Eu vi que você fez cara feia quando eu entrei. Você não deve saber o que é isso, mas isso aqui é suor de um dia duro de trabalho pra sustentar uma família inteira.

Enquanto contava da origem de seu suor, resolveu, sabe-se lá o porquê, enfiar aquela axila fedida no meio da cara dele. Como falava alto e havia ficado de pé no ônibus, todos os passageiros já assistiam a cena.

— Você está enganado, meu rapaz… Eu só quis olhar pela janela.

— Você não queria olhar é nada! Você só disfarçou pra se afastar de mim e do meu cheiro.

— Ah, quer saber? E se for? O que você tem a ver com isso? Não lhe devo explicações, nem sou obrigado a ficar aguentando esse seu cheiro.

Silêncio total. Comoção entre as pessoas. Pensavam consigo mesmas sobre o pecado que o senhor havia cometido. Como ele poderia maldizer o suor sagrado do trabalho honesto de cada dia daquele jeito? Começaram as manifestações:

— Que abuso! Você deveria ser preso!

— Só diz isso porque ele não é negro e acha que vai sair impune… Seu racista!

— Gente, vamos filmar a cara desse imbecil…

— Temos é que prestar queixa contra esse cara.

Um outro homem tomou as dores do fedorento. Levantou de sua poltrona e veio tirar satisfação:

— Sabe o que eu faço com quem é preconceituoso, seu merdinha? Eu quebro a cara dele!

Não fosse o motorista parar o veículo enquanto se formava um tumulto danado com os passageiros todos, ele teria apanhado mais do que apanhou. Na bem da verdade, só levou uns empurrões e umas chacoalhadas. Escapou do massacre. Mas a coisa ainda piorou muito. O vídeo foi pra internet. Correu meio mundo. Virou notícia na TV. A imprensa forçou as autoridades que forçou o ministério público que forçou os juízes a puni-lo como se devia. O dia do julgamento foi transmitido ao vivo para todo o país.

E assim foi sentenciado: o senhor que não quis sentir o cheiro de suor do homem trabalhador seria enforcado em praça pública.

Houve nova comoção nacional. Muitos gostaram e prometeram fazer caravanas para o grande dia. Outros prometeram protestar contra essa verdadeira barbárie. O que não mudou em nada a sentença.

O dia chegou e foi inesquecível. O senhor que não queria sentir o cheiro de suor do homem trabalhador foi levado para a praça ainda pela manhã. Amarraram-no em uma estátua que ficava praça e deixaram-no tostando no sol sem piedade.

Quem passava achava justo e decente de agredi-lo. Teve um que veio e chutou. Teve um que veio e cuspiu. Teve um que veio e socou. Teve um que veio e xingou. Teve um que nem veio, mas desejou mal. Teve muita gente que se aproximou como quis sem que nada fosse feito.

Quando era meio dia, resolveram que era melhor deixar o homem com fome ali no sol mesmo. Ele ia morrer mesmo, ao menos se economizava um prato de comida. Quando teve sede, deram-lhe urina, o que fez com que as pessoas rissem.

O enforcamento estava marcado para as quatro da tarde, mas atrasou. O tumulto causado pelas caravanas e pelos manifestantes precisou ser resolvido antes na base do spray de pimenta e cacetada. Cinco horas enforcaram o meliante.

Houve quem pedisse clemência em nome do enforcado. Houve também quem pedisse bis. Os deputados correram logo e aprovaram a lei que garantia que todo e qualquer cidadão, a partir daquele dia, teria o direito de feder com dignidade em todos os lugares dentro do território nacional.