24/03/2018

Homem sem propriedade

Um homem escreveu seu nome em alguns papéis e entregou uma quantidade considerável de dinheiro para outro homem. A partir deste acontecimento, o primeiro passou a ter o direito perante a lei de todos os homens deste mundo de acreditar que era o verdadeiro dono de uma grande propriedade rural. Assim que possível, cercou-a por todos os lados com mourão de eucalipto e arame farpado e foi capaz de mostrar para outros homens com exatidão através deste gesto quais eram de fato os seus limites.

Os anos vieram. O homem, respeitando as limitações produzidas por ele mesmo, cometeu barbaridades e abusos inenarráveis dentro do que acreditava ser sua propriedade. Fez dinheiro, filhos e tentou sentir-se bem de alguma forma. À medida que seu esforço em sentir-se bem aumentava, sua esperança de êxito parecia diminuir. Houve então um tempo em que recuou. Ponderou no tempo seguinte. Acabou por reunir toda as suas energias para um último ato de maior impacto e encerrar toda a história de uma vez: meteu fogo em tudo. Matou tudo. As plantas. Os animais. Tudo. A matança de seu último ato foi tal, que avançou também para dentro de sua casa, onde, por sorte, não havia mais ninguém, além do próprio incendiário. Morreu junto, acidentalmente.

No dia seguinte nada mais amanheceu naquele lugar. Somente o chão da enorme propriedade rural - chamuscado pelas chamas da tarde anterior - envolvido pela cerca carbonizada com seus fios de arame farpado também carbonizados. Noves fora, era todo esse o seu legado: a imagem de destruição do que ele acreditava ser sua propriedade, e a incapacidade, mesmo com o emprego de toda as suas energias, de romper os seus limites.