26/09/16

Assombrado Blues

Nascido num Blue
fiquei à mercê
sem sonho nenhum
sem nada a perder

sou filho da luz
do amanhecer
que me abandonou
depois de nascer

dentre os bastardos sou senhor
safo e assombrado
vou

carrego em mim
o dom de vagar
por horas a fio
por todo lugar

não corro e não
pretendo parar
sou dilema eu sou
fumaça no ar

que flutua longe meu amor
que seja por onde for

voa e dispersa por completo envolvimento
voa e dispersa por completo envolvimento

contamino o céu
mas eu quero mais
e faço, meu bem,
o que não se faz

invado metrôs
cafés e jornais
o caos na tv
e a tua paz

nela eu despejo meu temor
porque sou o avesso
sou

aquele que vem
e vai provocar
o riso sem cor
a treva no olhar

ferida que não
se deixa sangrar
sou dilema eu sou
fumaça no ar

que flutua longe meu amor
que seja por onde for

voa e dispersa por completo envolvimento
voa e dispersa por completo envolvimento.


(Letra/Música: Dom Paulão e o Guitarrão)


.......

Link áudio: https://soundcloud.com/dompaulaoeoguitarrao/assombrado-blues

12/09/16

Poema ébrio

Uma cerveja gelada
verte e vai ser comunhão
da boa e velha risada
que bons amigos se dão

louva a loucura lembrada
causa a saudade e então
sensibiliza a jornada
salva se não se está são

chamam-na assim camarada
e só não entende quem não
sorve por trás da cevada
contentamento e canção

ceifa sem hora marcada
sela a celebração
brinda por tudo e por nada
rima com esporte bretão

cerva de crivo certeiro
cumpre a sina servil
vai batucar no terreiro
e tem sabor de brasil.

03/09/16

Entre a tinta e o sangue

Escrevo assim como quem mata
ao modo frio e calculado

e o prazer vem por instinto
vem sem freio nem pecado

visceral
como a raiva
no universo virtual

nada sobra ao que falece
senão o fim

nada sobra

entrego a vida
o momento da vida
a tormenta
a alegria
e a frustração

porque palavra é corpo
e corpo cai
apaga
morre
enterra
é nada
é parte
chão

chão donde vem nova vida
vida que vem e resiste
por mais um tempo
e mais um tempo

escrevo assim como quem mata
e dá cabo d'um qualquer

o sadismo sentido
o envolvimento completo
o mal

santificam o afago endiabrado
a violência apaixonada e sem pudor

escrevo assim como quem mata
psicopata
sou.

27/05/16

Poema incontido

A violência no corpo da mulher acontecerá neste dia
a supressão da dignidade da mulher acontecerá neste dia
a opressão de seus anseios e vontades
a invasão de sua privacidade
impulsionada pela força inconcebível das opiniões alheias
acontecerá também
tudo agora
tudo já
eu não fico sabendo
você não fica também
mas acontecerá
embora a gente não saiba
acontecerá
em alguma hora do dia
do dia que morre sem se debater
e tem a luz abafada pela vergonha de nos mostrar que este dia também é isso
luz que se cala e emudece
porque precisa aceitar que é mais fraca
e perderá a capacidade de iluminar no decorrer das horas
para que a noite sobressaia mais uma vez
como dizem os conformados
o dia não é diferente do que foi ontem
frustro-me também por não sê-lo
e ser capaz de com apenas a força do meu pensamento
frear toda a insensatez do mundo
frustro-me mas ainda tenho força para resistir
e não aceitar as coisas como elas são
é por essas e outras que levanto após a queda de cada dia
como forma de resistência
tendo o retorno da luz como companhia
a luz nos olhos da mulher
que clareia e alimenta a esperança do mundo
através do que pensa sonha e faz

ainda que tentem contê-la
ela resiste
luta
e vence
como a luz que entra por uma fresta da janela obscura
e supera a treva do quarto abandonado
com brilho e calor.