22/10/16

Amor materno para com as estrelas

Deitada no gramado
Jurou não demorar
mas foi até mais tarde
com a luz do luar

e o céu da cidade
num pasmo estelar
a viu abrir os braços
tentando abraçar

e ninar
o luar
cuidava do infinito
até o sol voltar.

.......


17/10/16

Paulvito

Eu nunca gostei do meu nome
sempre quis mudar
melhorar a forma como sou chamado
tornar o nome mais meu
paulo vitor sempre pareceu não ser meu nome
paulo vitor vem de paulo victor ex-guarda-metas do fluminense
que por gosto acaso numerologia ou engano
saiu com a escrita diferente

eu nunca gostei do meu nome
mas sempre gostei menos de ser chamado pelo nome errado
pra ser sincero eu sempre achei um descaso danado
transformar-me em joão paulo
luís pedro
marcos vinícius
joão vitor
pedro paulo
júlio césar
marco antônio
josé paulo
paulo césar
e tantos outros

a glória era mesmo quando acertavam
e na infância
eu me lembro bem
os coleguinhas sempre acertavam
principalmente quando era pra me chamar pra brincar
paulvitooooo ô paulvitooooo
no bom mineirês
miscigenado e atropelado
que torna a pronuncia mais ligeira efetiva e breve
paulvitooooo ô paulvitooooo
eles me chamavam lá fora
e eu cá dentro
achava o máximo

se pudesse me rebatizava
pra ser chamado sempre assim
paulvito
porque sempre que ouço
me ocorre a lembrança de que fui menino
como um chamado
uma convocação pra voltar pra meninice logo
cheia de vida
e felicidade.

12/09/16

Poema ébrio

Uma cerveja gelada
verte e vai ser comunhão
da boa e velha risada
que bons amigos se dão

louva a loucura lembrada
causa a saudade e então
sensibiliza a jornada
salva se não se está são

chamam-na assim camarada
e só não entende quem não
sorve por trás da cevada
contentamento e canção

ceifa sem hora marcada
sela a celebração
brinda por tudo e por nada
rima com esporte bretão

cerva de crivo certeiro
cumpre a sina servil
vai batucar no terreiro
e tem sabor de brasil.

03/09/16

Entre a tinta e o sangue

Escrevo assim como quem mata
ao modo frio e calculado

e o prazer vem por instinto
vem sem freio nem pecado

visceral
como a raiva
no universo virtual

nada sobra ao que falece
senão o fim

nada sobra

entrego a vida
o momento da vida
a tormenta
a alegria
e a frustração

porque palavra é corpo
e corpo cai
apaga
morre
enterra
é nada
é parte
chão

chão donde vem nova vida
vida que vem e resiste
por mais um tempo
e mais um tempo

escrevo assim como quem mata
e dá cabo d'um qualquer

o sadismo sentido
o envolvimento completo
o mal

santificam o afago endiabrado
a violência apaixonada e sem pudor

escrevo assim como quem mata
psicopata
sou.

27/05/16

Poema incontido

A violência no corpo da mulher acontecerá neste dia
a supressão da dignidade da mulher acontecerá neste dia
a opressão de seus anseios e vontades
a invasão de sua privacidade
impulsionada pela força inconcebível das opiniões alheias
acontecerá também
tudo agora
tudo já
eu não fico sabendo
você não fica também
mas acontecerá
embora a gente não saiba
acontecerá
em alguma hora do dia
do dia que morre sem se debater
e tem a luz abafada pela vergonha de nos mostrar que este dia também é isso
luz que se cala e emudece
porque precisa aceitar que é mais fraca
e perderá a capacidade de iluminar no decorrer das horas
para que a noite sobressaia mais uma vez
como dizem os conformados
o dia não é diferente do que foi ontem
frustro-me também por não sê-lo
e ser capaz de com apenas a força do meu pensamento
frear toda a insensatez do mundo
frustro-me mas ainda tenho força para resistir
e não aceitar as coisas como elas são
é por essas e outras que levanto após a queda de cada dia
como forma de resistência
tendo o retorno da luz como companhia
a luz nos olhos da mulher
que clareia e alimenta a esperança do mundo
através do que pensa sonha e faz

ainda que tentem contê-la
ela resiste
luta
e vence
como a luz que entra por uma fresta da janela obscura
e supera a treva do quarto abandonado
com brilho e calor.